quinta-feira, novembro 20, 2008

Coisas que não te digo I

Sentir em silêncio

Um dos grandes problemas nas relações é geralmente, a projecção. Apaixonamos-nos por uma imagem que fabricamos na nossa cabeça e algumas dessas projecções até podem corresponder à realidade. À excepção dos sentimentos mais especiais que nascem entre pessoas que já se conhecem pessoalmente há algum tempo, mas que nunca se "encontraram" até ao dia.
Ou seja, quando conhecemos uma pessoa e dá-se aquele "click", começamos nesse segundo a projectar uma personagem, uma figura mítica até, que depois à medida que o tempo vai passando, se desfigura, revelando a (por vezes crua) realidade.
Isso já aconteceu comigo, e provavelmente com toda a gente.

Mas e se fôr ao contrário?
Pois é... agora estou baralhada.
No nosso caso, o facto de ter projectado em ti uma figura vazia, boémia, sem apegos, sem laços, egoísta, gozão e tudo o mais de negativo que há anos ouço de ti (sim, porque eu ouço falar de ti há anos embora tu só saibas da minha existência há uns 2 meses), achei que isso funcionaria como uma vacina contra ti.
E naquela noite em que tão improvávelmente nos conhecemos (nunca tal coisa me tinha passado pela cabeça), estive sempre confiante. Sem problemas! Ah queres o meu telefone??? Toma lá pá, eu sou ninja e portanto imune a qualquer charme que tentes emanar para os meus lados.
Na verdade o nível alcoólico era tal que achei que nem sequer tinhas guardado o meu número, e que pronto tínhamos trocado umas palavras mas nunca mais te ía ver na minha vida pessoalmente. Afinal naquele louco aniversário do Lux, eu devo ter "conhecido" e trocado palavras com umas 20 pessoas que nunca tinha visto antes! Até houve um rapazinho (bem engraçado, por sinal) muito bêbado mas muito querido que, ao fim de uma meia hora de troca de palavras entre as quais "tu és linda" que ele repetiu umas 10 vezes, me deu um beijo na boca, ao que reagi com um "Então adeus" e fui-me embora e lá está, nunca mais o vi.
Mas não. Cheguei a casa às 8h30 e tinha uma chamada tua não atendida.
Ao que respondi com uma mensagem nada simbólica "Então, essa ressaca, tão grande como a minha ou pronto para outra?"
E assim começou. Troca de mensagens e eu sempre a pensar:"Eu sou ninja. Eu sei bem que terreno estou a pisar"! É que nestas coisas, eu sou um bocado como o outro "some people ask why, i ask why not". E ao fim do primeiro encontro, no qual bebemos um copo e conversámos animadamente, quando me deixaste em casa, antes de fechar os olhos, perguntei a mim mesma claramente "Why not"?
Afinal não me envolvia com ninguém há quase 2 anos, porque não? Ele é um gajo que consta ser pouco dado a compromissos ; Eu ainda não me apetece muito me envolver assim tanto também, portanto why not?Eu já sei algumas coisas sobre ele, ele nada sabe de mim, so why not?
E as coisas foram se proporcionando. Mal sabia eu da minha capacidade sobrenatural de me enganar a mim própria.
Então comecei numa defesa obsessiva, a gelar que nem pedra cada vez que eras carinhoso. Quando me leste um poema de amor e me perguntaste o que eu achava, respondi-te que era bonito, mas uma anulação da pessoa que o tinha escrito. Quando disseste que gostavas de mim não te respondi... quando tentavas te aproximar não fisica mas emocionalmente eu quase me desligava... comecei a perceber que estava presa numa carapaça que eu própria tinha criado, e provavelmente é essa a ideia que tens de mim hoje: um corpo, nada mais. E deixaste de te aproximar. E deixaste de me ler coisas. E começaste-te a afastar... até que eu já me sentia uma boneca. E começou a doer. A doer muito. E apeteceu-me tanto dizer-te esta não sou eu! Eu na verdade apaixonei-me por ti cada vez que me falaste ao ouvido, cada vez que me tocaste, cada vez que me beijaste, cada vez que me procuraste. Cada vez que pediste a minha opinião sobre a última coisa que tinhas feito, sobre aquilo que estavas a fazer, sobre aquilo que ainda ías fazer. Cada vez que me abraçaste e me beliscaste as orelhas como tens a mania de fazer.
E ontem fui-te ver. A ti, mais às dezenas pessoas que estavam contigo. E fui-me embora sem te dizer nada. Não te apercebeste, mas fui me despedir. Porque se alguma vez podia ter sido alguma coisa para ti, hoje sinto que sou nada.

9 comentários:

R.L. disse...

... gostei muito. tenho esse problema: houve alturas em q era um livre aberto e andava com o coração sempre nas mãos, aos poucos, fui tornando-me racional, criando defesas, sempre com medo de me magoar e de magoar outros. Até que me pergunto: Why? *

R.L. disse...

leia-se "livro"

misskitsch disse...

Adorei o texto.
Não só, ma stambém porque eu já estive aí... mas felizmente consegui travar o "embrutecimento"...



*

kin! disse...

Muito bom! Como eu me revejo no texto... Eu gosto de conhecer o terreno por onde piso, analiso tudo e mais qualquer coisa, e só quando tenho a certeza de alguma coisa, e quando estipulo que é tempo de avançar com o pézinho, já é tarde demais... Enfim... Isto porque antes era impulsiva, e cai no erro, e agora que sou mais racional, não aproveitei... :S

Me disse...

Volta. Vai ter com essa pessoa. Explica. Fala. Pede "lentidão". Volta e fala. O que estás a fazer agora, a tal despedida, é exactamente o mesmo que fizeste das outras vezes... fechares-te sobre ti própria... Terminares com algo que mete medo...
Volta. Fala. Explica. Vais-te sentir melhor. Tiveste fé... vive essa fé.
Volta!
Why not, né? VOLTA!

illatonero disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
>> nim disse...

sentes que acabou? ... segue em frente.

sentes que há esperança? ... volta atrás.

é simples? não, não é. mas também se fosse, este post não existiria.

beijinho

illatonero disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Me disse...

Pois... De facto não conheço... E acredito em ti. Mas nota-se que não estás bem. Agora só depende de ti meteres-te bem... seja qual for o caminho. Um gps???
beijos