quarta-feira, janeiro 07, 2009

Memórias

Hoje, mais que nunca, apetecia-me estar longe. Apetecia-me estar a viajar. Como não tenho essa hipótese, resolvi ir buscar ao meu baú de boas memórias a minha viagem a Goa.
Fui na época baixa, que é como quem diz na altura da monsão, ou como quem diz nada de festas trance na praia, poucos ou nenhuns turistas, a não ser alguns malucos que lá foram de férias e lá ficaram, todos queimadinhos (provavelmente depois de algumas festas de transe na praia de Anjuna).

Primeiro, aterrei em Bombaim, e lá fiquei de um dia para o outro.

A vista ao aterrar é assustadora. Á volta do aeroporto, a perder de vista, barracas e mais barracas, numa miséria de meter dó.


Assim que saio do avião, paro e respiro fundo. Um misto de cheiros (insenso, caril e mijo de elefante), que à maioria das pessoas que estava naquele avião se revelou incómodo, assim como um calor de 34 graus e uma humidade de praí 80%. A mim, parecia-me ter chegado a casa, por estranho que isto pareça. Senti-me bem, estiquei os braços como se me fosse espreguiçar e sorri.

Apanho um táxi para o hotel. O trânsito é o caos. Todos buzinam uns aos outros, até que percebi que é um gesto como de cumprimento, quando constatei que a maioria dos carros tinham um autocolante na traseira que dizia "Horn please!". Estes Indianos são doidos, pensei. No meio de uma avenida enorme e c om um movimento frenético passeava um gajo... montado num elefante, no meio de pessoas e carros.

Bombaim é dividida. Tem os tais bairros miseráveis, os tanques públicos (para onde vão todos lavar a roupa), tem "intocáveis" espalhados por tudo o que é ruas, principalmente debaixo de pontes. Para quem não sabe, os "Intocáveis" é uma casta, a mais baixa, que é nivelada com o que de mais impuro possa existir. Qualquer Indiano de qualquer casta que seja superior não toca nem sequer cruza o olhar com um Intocável. Assim que o meu táxi parou por causa do trânsito, apareceu logo uma mulher com um bébé ao colo, a pedir. Os dois Intocáveis. Eu comecei à procura de trocos para lhe dar e o taxista começou agressivamente aos gritos "No! Shush!Shuuuuuuush!" e avançou meio metro para a frente, afugentando a mulher.
Expliquei ao taxista que queria ajudar a mulher, mas ele indignado explicou-me que não podia, que não queria aquela Intocável a tocar-lhe no carro, que era uma ofensa ajudá-los. Não insisti. Ele explicou-me que é assim mesmo. Embora esta distinção e descriminação para com os Intocáveis seja hoje em dia proibida pela Constituição Indiana, facto é que ainda é praticada por cerca de 80% da população daquele País. Chega ao ponto de, contou-me ele, ás vezes morrerem na rua e lá ficarem os corpos dias e dias porque ninguém lhes quer tocar.

Têm um mau Karma, e por isso nasceram Intocáveis. É a paga.

Apesar de tudo isto, apesar das diferenças culturais, não posso dizer que não gostei daquele povo. Pelo contrário. Trouxe de lá muito boas recordações, momentos que estranhos, de um povo estranho, me proporcionaram.

Assim que cheguei ao hotel, era só sorrisos. Lá cordiais eles são (ou sabem ser). Naquela noite quis jantar fora e sugeriram-me uma zona de Bombaim considerada de luxo. A onda lembrava-me um pouco o Bairro Alto, mas sem ter tanta gente na rua. Entrei num bar que podia perfeitamente ser no B.A.. Mais uma vez, um taxista explicou-me que aquele bairro era muito cosmopolita, e que a "noite" era das melhores. Que grandes nomes da música e cinema internacionais como o Michael Douglas e Catherine Zeta-Jones se deslocavam àquela cidade apenas para frequentarem certos bares dali. E de facto aquele bairro tinha qualquer coisa que convidava. Não me demorei muito, pois no dia seguinte bem cedo tinha de apanhar o avião para Goa.

Chegada a Goa, esperava-me um guia, muito simpático. Explicou-me tudo o que eu não podia perder, onde devia ir, como devia ir, etc. Explicou-me tudo isso e nunca mais o vi.
Mais uma vez, taxi para o hotel. Pelo caminho eu estava extasiada com a vista, com as pessoas que andavam na rua, com a riqueza de cores. Por duas ou três vezes vi a minha vida a andar para trás, quando o taxista se atirou para cima de carros em sentido contrário, para se desviar de vacas que calmamente se passeavam no meio da estrada. Podemos morrer todos, mas matar uma vaca é que não, que é sagrada!!! Mas, também mais uma vez, o taxista era porreiro, e o Mr. Morais (apelido que não só é português como também é meu!) ofereceu-se logo para ser o meu taxista pessoal sempre que precisasse. E assim foi. O Mr. Morais levou-me a vários templos de Goa, e quando lhe disse que gostava muito do Ganesh, divindade hindu com corpo humano e cabeça de elefante, ele levou-me logo ao Templo do Ganesh.

O meu hotel era perto de Pangim (agora Panaji), numa zona chamada Sinquerim, na praia do Forte de Aguada. De maneira que nunca me afastei muito dali. Visitei, como disse antes, Pangim, Anjuna (onde costumam haver as tais festas trance na época alta), Mapusa e o seu gigantesco mercado, templos hindus vários, igrejas portuguesas várias, incluindo a do "Bom Jesus", onde está o túmulo de São Francisco Xavier,e a Quinta das Especiarias (adorei!!!)! Mr. Morais levou-me também a todas as zonas boas para fazer compras, sempre lojinhas bem típicas, com muitas pedras semi-preciosas e até preciosas, pratas, as traquitanas típicas indianas.

No 1º dia, parámos num templo que ficava à beira de uma estrada. Não estava lá ninguém, a não ser o Brâmane do respectivo templo (Brâmane é o portador dos ensinamentos dos Vedas, os quatro textos em sânscrito que formam a base do extenso sistema de escrituras sagradas do hinduísmo, que representam a mais antiga literatura de qualquer língua indo-europeia, portanto como os Padres para o Cristianismo.)

Este Brâmane era assim para o gordinho, careca, e as únicas coisas que tinha em cima do pêlo era uma espécie de lençol amarelo atado à cintura e um fino cordel vermelho traçado à tiracolo. Essa era aliás, a indumentária de todos os Brâmanes com que me cruzei nesta viagem, variando apenas a cor dos tais lençois. Sei por exemplo que o tal cordel tem um forte significado, mas não me lembro qual é.
Eu cheguei à porta do templo, e o Brâmane imediatamente olhou para mim e largou um sorriso muito simpático e acolhedor, fazendo um gesto que me convidava a entrar. Ele não falava inglês, e o Mr. Morais entretanto já tinha voltado para o táxi, de maneira que a pouca comunicação que existiu foi gestual. Percebi que naquele momento ele estava a praticar um ritual para Ganesh, então no chão tinha uma estatueta do Ganesh, e em frente da estatueta uma taça com comida e ao lado insensos a queimar. Deixou-me tirar umas fotografias (geralmente não deixam) e não me deixou ir embora sem me dar uma banana e uns torrões de açúcar. Agradeci muito e fui-me embora com a alma um pouco maior.

No dia que fui visitar Anjuna o céu estava carregadinho de água e cinzento escuro, de maneira que não me demorei muito. A praia é muito bonita, e ainda perdi uns minutos a imaginar as festas trance que ali aconteciam na época alta, cheias de estrangeiros todos malucos e queimadinhos. Umas mulheres por ali andavam a vender coisas, e agarravam-me e quase que desatavam à pancada umas com as outras para ver quem é que me vendia alguma coisa. Acabei por comprar nem me lembro o quê àquela que mais se destacou visualmente: uma mulher feia como os trovões mas com traje a rigor do Rajastão, carregada de ouro, da orelha ao nariz e cabelo, com um sari de cores fortes e vivas.

Em Mapusa, um famoso mercado enorme, limitei-me a comprar uns incensos e umas pulseiras, nada mais.

Num dia que nada tinha planeado resolvi pegar na máquina fotográfica e dar uma volta a pé. Saí do Hotel e fui andando, andando, andando, até que dei com um templo pequenino que parecia abandonado, e tinha a porta fechada.
Estava eu entretida a tirar fotografias à fachada quando, por trás do templo, aparecem três cabeças a espreitar e a rir.
Aparece-me uma mulher, um homem e um miúdo praí de 16 anos Brâmane! O miúdo começou a acenar a chamar-me. Eu lá avancei, espantada com o miúdo, tão novinho e era já o Brâmane. O miúdo falava inglês pelos cotovelos, com um sotaque macarrônico, mas com um vocabolário vastíssimo. Fez questão de me mostrar o seu Templo e deixou-me tirar fotografias à vontade, algumas até com os três a fazerem pose. Quem eram os outros 2, que não deviam ser os pais porque me pareceram muito novos para isso, nunca percebi pois eles não falavam inglês e limitavam-se a acenar com a cabeça e a sorrir.
Depois, e sempre a falar pelos cotovelos e com um entusiasmo enorme, o pequeno Brâmane quis me mostrar o seu altar pessoal, que o próprio tinha construído com muito trabalho e orgulho, fora do templo e debaixo de uma espécie de alpendre. O altar tinha 12 estatuetas de barro feitas por ele, e cada uma tinha roupas em tecido de cor diferente. Ele explicou-me que representavam os planetas, o Sol e a Lua. Depois teve umas duas horas a explicar o significado, com o seu inglês macarrônico e de olhos esbugalhados de emoção. Já ao final da tarde, sentámos os quatro no chão à porta de casa dele que era ao lado do templo, uma espécie de barraca de cimento e telhado de zinco, partilhámos uma maçã e o serão durou até anoitecer, ao som de cítara, djambé, e um gajo a cantar que parecia estar em transe- e estava, explicou-me o Brâmane quando lhe perguntei o que estávamos a ouvir.
"Monsoon Melodies" era o nome da cassete que estava a tocar e era qualquer coisa de transcendente. Essa tarde vai ficar na minha memória para sempre, e mais uma vez regressei ao hotel com a alma maior - e com a cassete na mão, que eles fizeram questão de me dar.

No dia seguinte fui com o Mr. Morais à Quinta das Especiarias. A Quinta das Especiarias parece uma floresta tropical e ao chegar dois indianos vieram pôr-me um colar de flores e uma pinta vermelha na testa, e depois começaram a atirar pétalas de flores para o ar, um ritual que fazem sempre para dar as boas vindas aos estrangeiros. Vi baunilha em flor, vi a planta do cacau, a pimenta, a noz moscada, açafrão, uma infinidade de especiarias que nunca tinha visto a não ser em pacotes.
Durante a visita guiada, encontro uma bolinha no chão e pergunto a um dos guias o que era. Não me lembro do nome, mas o guia explicou-me que era a única droga legal dali, que se mastigava e depois "viajava-se" um bocado. Ora como entretanto tinha encontrado ali uma familia inteira de portugueses que também estavam em Goa de férias, dei por mim às escondidas a apanhar bolinhas daquelas e a esconder no bolso, a planear mastigá-las assim que chegasse a Portugal ( e assim fiz, mas não só sabiam mal como não "bateram" nada!)

No último dia, fui despedir-me do pequeno Brâmane. Ele apresentou-me o seu Guru, que entretanto tinha aparecido, uma figura tão singular que tive de tirar uma fotografia: com oitenta e tal anos, sentado numa Vespa (mota), o tal lençol desta vez branco e uma camisa branca, barba até ao peito branca, pinta na testa e turbante branco também. Eu e o pequeno Brâmane trocámos moradas e mais tarde ele escreveu-me uma carta toda espiritual, a dizer para quando voltasse a Goa para os visitar, e terminando com "i pray for your sins everyday" - caraças, essa agora! Está-me a chamar pecadora!

Memórias soltas:

- o gajo da piscina do hotel me dar a dica que era solteiro e que estava na altura de casar (????)
- O Sr. da loja onde eu estoirei praticamente o meu dinheiro todo.
- A depilação com linha de cozer torcida.
- A massagem com óleos Ayurvédicos.
- A sanduiche "Club" sem picante por favor que eu não estou bem do estômago e que veio super picante porque eles não sabem o que é comida sem picante mas eu comi-a na mesma que estava cheia de fome e depois fiquei à rasca.
- A chuvada colossal que caiu estava eu na piscina.
- Andar pelos jardins do hotel à noite, a chover, de havaianas nos pés, calções e top de alças e não sentir nem um arrepiozinho de frio(tãããããããão bom, chuva morna!)
- Os esquilos e os corvos que vinham tomar pequeno almoço comigo na varanda do meu quarto.
- A malta do restaurante do hotel!
-"Oh iór portuguisi?? I can Speaki Portuguisi: Figoooo, Benn ficaaaa, Ronaldooo."
-O templo de Kali onde o brâmane apesar de simpático metia medo porque era igual ao do "Indiana Jones e o Templo perdido"- lembram-se, "Kali-ma, Kali-ma, Kali-ma..."
Os cheiros, as cores, as pessoas, os sorrisos, a bondade, a simpatia, a temperatura... TUDO!

Quero tanto, mas tanto, lá voltar!!!!!

*infelizmente as trezentas e cinquenta e quatro fotografias que tirei estão todas em papel pois foram tiradas com uma Nikon F60. Tenho muito poucas digitalizadas, mas aqui vos deixo:


A Quinta das Especiarias




A praia do Forte Aguada, que ficava à frente do hotel


Os quartos do hotel (esta tirei da net, pois não tenho digitalizada)


Eu, à porta de um Templo, descalça, e sem cabelo (tinha cometido este crime no meu cabelo comprido poucos dias antes, em casa e munida de tesoura - MEDO!)

5 comentários:

R.L. disse...

adorava conhecer a Índia, além de adorar a comida, tenho a sensação que já lá devo ter vivido, noutra vida.

misskitsch disse...

Confesso que não é sítio que me seduza. Mas gostei mesmo dos detalhes todos... bom para aquecer, com o grizo que vai lá fora!

*

S.Tear disse...

Deve ter sido uma viagem inesquecível...

Leila* disse...

Índia, sem dúvida um destino que tenho em lista de espera. Quem sabe um dia destes com "aquela" promoção que sabemos! ahaha

Nem te reconhecia na foto...foi mesmo um crime!!! :D

beijinhos*

>> nim disse...

invejo-te. muito.

e pronto, era isto.

beijinhos